segunda-feira, 1 de abril de 2013

A dança e o rito de passagem


 
Rania, rainha. Uma menina vivendo numa periferia da cidade grande, perto do mar, um pai pescador, uma família com problemas bastante comuns a grande parte da população.
Pais separados, , irmãos envolvidos em dificuldades e confusões.

Mas, o eixo de toda a história é a enorme vontade de sair, fugir, voar para outras paragens e novas realidades, outras perspectivas e aprendizados, ampliar os horizontes...
Ao mesmo tempo, Rania tem plena consciência de que é a única responsável por si mesma, por sua alegria e, sobretudo por suas escolhas.

Nesse sentido, é extremamente madura, determinada, ao mesmo tempo em que permanece sensível e generosa em relação á sua família.
Mas o que chama a atenção no filme é o quanto a personagem Raina consegue manter o foco, sua delicadeza em afirmar a escolha pela dança como um caminho de superação.

A dança é de fato o fio condutor da sua vida, o que alimenta e anima a existência, seu corpo e sua alma..
São belíssimas as cenas em que ela dança, graciosamente mas com a força da sua inspiração, quase como metáfora, um corpo que se movimenta na direção do desejo, no ímpeto de marcar seu lugar no mundo.

O filme é isso, a história de uma garota e sua paixão pela dança na busca por construir um universo diferente onde seja possível ser feliz.
Trata-se de um momento especial, a saída de uma experiência de dependência extrema, para assumir seus riscos, ousar e cair na vida por sua própria conta.

O final da história fica em aberto, mas eu prefiro crer que Rania tornou-se sim a dona do seu caminho, soube se impor, soube exercer ainda mais a liberdade das escolhas, embora com dor, como sempre são os ritos de passagem.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A Bahia emocionante de Gilberto Gil

  
O Itaú Cultural promoveu uma exposição em homenagem aos 70 anos de um dos maiores compositores, músico e poeta brasileiro - Gilberto Gil. É emocionante ver a coerência da trajetória de Gil nesses 70 anos e sobretudo como suas escolhas e atitudes estavam diretamente relacionadasàs questões do seu tempo. A exposição se esmerou em traduzir
 
Gilberto Gil no contexto que permeou esses seus 70 bem vividos anos.
Além de prestar um ótimo serviço para a população que curte o trabalho do artista, ainda serviu para acrescentar  uma dose considerável de poesia às nossas vidas.
 
Alguns artistas homenagearam o ídolo a partir de obras que revelavam algumas leituras possíveis sobre a importância de Gilberto Gil para o país, outros mais afetivos, outros criativos e suas releituras.
O que mais gostei foi dos totens que permitiram que ouvíssemos novamente as canções há tanto tempo permeando nossas vidas e além disso que pudéssemos melhor compreender como Gil as construiu, qual o sentido de cada canção em sua vida, as histórias atreladas a elas, asquestões referentes ao exílio, a perda do filho, a política, sua relação com a Bahia, com o sertão entre outros temas...
Tão bonito de ver, pena que já saiu de cartaz, mas de qualquer modo, a audiência foi enorme e Gilberto continua cada vez mais vivo no coração da gente, com certeza!

A Bahia Metafórica de Rodrigo Campos

O assunto aqui é a Bahia. Mas não a Bahia do Axé, do carnaval, dos turistas, mas segundo Rodrigo Campos, a Bahia mística que habita nosso inconsciente coletivo.
Bonito isso, e nada melhor do que dar o nome de Bahia Fantástica ao CD cuja inspiração parece ter sido esse estar na Bahia e reconhece-la como um território misterioso e 'incompreensível'.
Fantástica pode remeter ao inacreditável, ao impossível, àquilo que está além da realidade cotidiana. O cd de Rodrigo campos compartilha conosco esse sentimento, que ao final deixa tudo em aberto, compartilha a dúvida , a incerteza como ele bem sabe fazer, com poesia, delicadeza, lindas letras que falam de personagens tão misteriosos também.
Rodrigo não se cansa de generosamente contar histórias e está sempre completamente solidário a elas, foi assim no trabalho anterior São Mateus não é um lugar tão longe assim que trouxe pra bem perto um lugar estigmatizado por ser tão longe... longe talvez dos olhos, mas que agora por meio de seus personagens, moleques, meninas e manos ficou tão próximo do coração.
é muito bom perceber que o segundo disco de Rodrigo vem na mesma toada, vem carregado de crônicas sociais urbanas que ajudam a repensar nossa relação com as cidades, as pessoas e principalmente com as diferenças.
Talvez a Bahia fantástica de Rodrigo seja assim, um lugar de diversidade e de profundas raízes, de histórias de Elias e Aninhas, de morte e vida, de seres incomuns...
Acho que vale a pena acompanhar esse novo compositor, cheio de frescor e então, daqui pra lá não vá dizer que a Bahia não lhe achou...


A capa do CD é da artista plástica Tatiana Blass,
esposa de Rômulo Fróes,
parceiro de Rodrigo em Passo Torto

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O Sorriso da Manu



Pra mim, Toninho Ferraguti é uma verdadeira paixão... Caso de amor mesmo!
Adoro sanfona, sempre gostei, e é lindo ver um músico da qualidade de Toninho, fazendo coisas tão lindas com o instrumento. a mistura de ritmos flamencos e brasileiros, cria ao mesmo tempo uma familiaridade e uma deliciosa nostalgia embalada pela
Seu mais recente CD O Sorriso da Manu é uma obra prima, trata-se de composições feitas para o espetáculo “Grupo Luceros dança Toninho Ferragutti”, dirigido por Clarisse Abujamra, no qual os bailarinos se apresentam ao som de um quarteto formado por acordeom, percussão, clarinete e contrabaixo acústico.
Toninho gostou muito do resultado e aproveitando as canções inéditas, todas de sua autoria, lançou o novo trabalho.
A menina Manu referida no título e numa das faixas, é sua filha mais nova para quem o papai dá esse presente tão especial.
Toninho é asssim, um músico delicado, extremamente sensível e competente que nos leva a viajar no som de seu acordeão, esse disco foi gravado no teatro da FECAP onde a qualidade técnica do espaço é precisoa para o resultado almejado. Todos gravam juntos, para criar um clima de amizade e unidade entre todos os músicos envolvidos. Enfim, o Cd apenas comprova o esmero com que foi produzido, pensado e executado...
O Grupo é formado por Alexandre Ribeiro (clarinete), Beto Angerosa (percussão), Zé Alexandre Carvalho (contrabaixo acústico), Ferragutti somou o piano de Paulo Braga e o quarteto de cordas formado por Ricardo Takahashi, Liliana Chiriac (violinos), Adriana Schincariol (viola) e Raiff Dantas Barreto (violoncelo), criando assim uma pequena orquestra que funde várias linguagens. 
O resultado disso é deslumbrante, Toninho sabe se retirar e colocar luzes nos músicos fantásticos...
É generoso, joga poesias para todos os lados!!!

UAKTI - A MAGIA DO SOM


O Grupo mineiro Uakti gravou um Cd com canções dos Beatles, desculpem, mas tenho que dizer: imperdível. É incrível o frescor e a criatividade do grupo que já possui 11 CDs gravados e não perde a coerência e o pópósito do trabalho.
Pura poesia!
é interessante pensar também no trabalho recentemente realizado pelo DuoFel que gravou Beatles no Cavern Club onde o grupo costumava se apresentar e que deixou os londrinos de boca aberta pelo inusitado de interpretar as canções sem colocar as letras. Nesse sentido, o Uakti surpreende ainda mais por ousar inserir uma instrumentação pouco provável que significou um enorme desafio em relação à construção de um novo modo de tocar.
Claro que o repertório é magnífico e surpreendente pelos arranjos maravilhosos do maestro Marco Antônio Guimarães lindamente executados pelos músicos Artur Andrés Ribeiro, Décio Ramos e Paulo, nesse show acompanhados em alguns momentos pela família (filhos e esposas) continuadores da obra...

O melhor de tudo foi saber que o Uakti em breve terá um Centro de Referência Musical enorme no quintal do Hospital da Baleia em Belo Horizonte, onde serão realizadas oficinas, cursos, shows e trabalhos com jovens ionteressados nessa tecnologia maluca e mágica que vem sendo aprimorada incansavelmente pelo grupo mineiro.
A expectativa é de que até o final de 2013 o centro seja inaugurado, demonstrando que saúde e cultura podem e devem andar juntos, a área do Hospital da Baleia foi escolhida pelo grupo para a construção do espaço e o mais bacana é que tudo isso estará à disposição dos colaboradores, pacientes, moradores do entorno e comunidade em geral.

Vida longa ao UAKTI!

Alma Lírica




Estive no SESc Bom Retiro para assitir o show Alma Lírica  com Mônica Salmaso, Nelson Ayres e Teco Cardoso... Apenas isso!
Já assisti várias vezes esse show, já comprei o CD, já ouvi, ouvi, ouvi esse trabalho musical, que ao meu ver é primoroso.
Coisa linda, recuperar a memória de um cancioneiro imperdível e impecável...
Beleza pura. Mais que isso, sempre me chamou atenção a singeleza das apresentações dâ exímia cantora... o respeito pelos músicos, a intenção que ela tem de nos dizer que uma música é tão bonita.
Enfim, a sobriedade necessária e fundamental para dar lugar para a beleza das melodias e das letras magníficas.
Mônica Salmsao é assim, amante da música, generosa ao extremo com seu público, a cada show nos entrega um presente, numa caixinha delicada que levamos pra casa e continuamos a lembrar e cultuar.
Ela não quer aparecer, nem roubar a cena dos músicos, quer cantar e cantar, acredito que quer muito também pesquisar as canções, descobrir as pérolas, devolvê-las.
Uma vez, lá nos primórdios de sua carreira,ouvi Mônica comentar que existem cantoras que querem dizer: "Olha como eu canto bem!" e outras que são felizes em dizer: "Olha como essa música é bonita!"
É assim que vejo Mônica como cantora, e a cada show, volto pra casa melhor, muito melhor como pessoa e ainda mais apaixonada pela música brasileira e pelos músicos que ela também se empenha em nos apresentar...
Que bom!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Cinema e solidão


 
Pra mim, ir ao cinema nunca foi um programa cultural coletivo. Não consigo entender essa coisa de enaltecer o cinema com o algo que se faz em grupo, ou ainda, que existe na sala escura um compartilhamento de emoções...Acho muito estranho.

Pra mim, ir ao cinema é algo totalmente particular, que envolve questões super íntimas e portanto, é algo que faço de modo totalmente solitário. Ir ao cinema acompanhada só pode ser por alguém com quem eu tenha muita intimidade, o suficiente pra não me sentir obrigada a tecer comentários sobre o filme.... ou ao contrário, alguém que possa suportar minhas considerações e impressões que jorram sem muitos critérios depois de ser tomada pela história contada...

Não poso compreender essa coisa de ‘vamos todos ao cinema? Um bando de amigos?’. Adoro encontrar meus amigos nas festas, ou nos bares, pra conversar e beber, jogar conversa fora e dar risada, mas ir ao cinema acompanhada de muita gente, acho da ordem do impossível... E mais engraçado ainda é se interessar por alguém e convidá-lo pra ir ao cinema... Não seria melhor ir para um lugar onde fosse possível conversar???

No meu modo de ver, Ir ao cinema, significa entrar em contato com coisas profundas, difíceis ou prazerosas que o filme vem para atualizar em mim... e isso inclui todos os rituais, ou seja, o café antes e quem sabe depois, assistir os terríveis traillers barulhentos, a bala para adoçar a vida, uma água em caso de necessidade e assistir os créditos finais, até o final mesmo, principalmente pra ver de quem é a trilha sonora, um interesse à parte.

Não gosto desse negócio de lugar marcado, na verdade, detesto, sabe porquê? Porquê dependendo de quem senta perto de mim, eu acabo mudando de lugar, seja por causa da pipoca, ou o ruído, a conversa paralela, o celular... Não curto ir ao cinema no final de semana, quando as salas estão mais cheias, bom pro cinema, péssimo pra mim...

Trata-se mesmo de um ritual, coisa mágica que não tem a ver com a reunião de pessoas estranhas numa sala, nunca estou acompanhada, estou sempre completa e profundamente  sozinha nas salas de cinema e é assim que posso fruir a obra... Não me venha falar de coletividade ou de partilhamento, as salas escuras propõem um encontro consigo mesmo, cinema é sonho e os sonhos são sempre particulares...

Por isso, gosto mesmo de ir ao cinema no meio da semana, tranquila, salas vazias, meu ritual começa logo cedo, com a escolha do filme, uma decisão... e meu dia fica completamente pautado nessa pequena decisão, depois pegar um ônibus, o metrô e ao entrar na sala escura deixar todos os problemas, tristezas e preocupações de lado, muito longe daquela sensação mágica de viver uma outra história, do desejo de querer ser aquele personagem especial, das identificações e inúmeras emoções que trazem à tona uma história longínqua particular e tão importante...

Pra  mim, cinema é isso... o encontro comigo mesma, algo solitário e revelador, é isso que o ato de ir ao cinema representa pra mim, pois a questão fundamental é perguntar o que é que cada filme sabe sobre a minha vida e para obter essa resposta, tenho que me permitir e garantir uma boa dose de introspecção... e silêncio, antes e depois e durante algum tempo....