terça-feira, 3 de setembro de 2013

“PASSADO SE FOSSE BOM ERA PRESENTE”

Hoje resolvi postar/registrar um texto/memória de uma querida amiga, irmã, um texto 'com tinta de longe' como diria o eterno Saramago em seu A bagagem do Viajante. Trata-se apenas de uma singela homenagem, uma pequena colaboração para que as memórias permaneçam alimentando nosso presente.... Saudades....
                
 
Adoro esse pensamento e insisto sempre que deveríamos desatar as amarrar com o passado e aproveitar o presente. Vejo amigos afirmarem que alguns de seus melhores momentos já foram vividos. Eles teimam em encontrar no meio da “poeira dos anos” os  seus melhores amigos, amores, colegas, novelas , livros  festas, viagens . Fico imaginando se quando viveram este tempo pensavam do mesmo jeito ou se estavam com a cabeça nas promessas do futuro.

    Mesmo com toda a minha crenҫa e “teoria” logico que também me pego em momentos de nostalgia. E por vezes bate certo desejo de trazer algo do passado para o presente (as vezes algo que nem foi real) . Por exemplo - a perfeita reunião familiar, com dezenas de tios, primos de primeiro, segundo e todos os graus reunidos e felizes. Bate o desejo de reencontrar pessoas que fizeram parte de alguns momentos da minha  vida, de saber quais os caminhos que traҫaram, o que andam fazendo.

    Um grama deste ultimo desejo se concretizou ha poucos dias atrás graҫas ao milagre presente da internet. Encontrei ao acaso o filho de um colega de faculdade e na sequencia a pagina do seu pai. Apressei-me em fazer um convite de “amizade virtual” e mandar uma mensagem. Aguardei, então, a resposta que , por certeza, seria “ UAU , que maravilha te reencontrar! O que anda fazendo ! etc” (tudo recheado com “Smile faces” e pulos no ar).  Depois de alguns dias a resposta chegou assim “ Você pode me mandar umas fotos..não lembro muito daquela turma” .

   Eu lembrava muito bem daquela turma e principalmente deste amigo, pois nossa amizade foi uma das minhas primeiras liҫões de como diferenҫas podem aproximar pessoas e o que eu guardei foram momentos super divertidos e interessantes juntos.  Respirei fundo, levei em conta que já se passaram 30 anos , que mente masculina não é muito evoluída no critério “memoria” e mandei outra mensagem com alguns detalhes que achava faziam a diferenҫa. E aguardei a resposta que seria “ Nossa , desculpe, logico que lembro, que maravilha te reencontrar , o que anda fazendo, etc, “… A resposta veio dias depois e me deu a impressão que uma vaga nevoa de lembranҫa passou por sua mente , mas longe de ser algo significativo.

  A coincidência foi que dias antes deste reencontro , reunida com  amigos, eu havia rememorado alguns dos meus momentos na faculdade e a amizade com este colega foi um dos que mais havia me marcado.

    Depois de certo choque, principalmente no meu ego e de enfrentar a dura realidade que não sou tão memorável quanto acreditava ser  hahahaha a experiência acabou por se transformar em boas gargalhadas. Passado é um velho álbum de fotografia, são algumas peҫas do quebra-cabeҫa que um dia formara a imagem completa de nossa história. Mas não faҫa do “passado” um “idolo” – uma desculpa para não viver intensamente o presente.

 Fecho meus olhos e escuto o sussurro de “Clarice” em meu ouvido… passado se fosse bom era presente”.
by Ana Maria Lines
setembro/2013

 

  

domingo, 14 de julho de 2013

Trindade e Paraty - Fotos


O grafite do artista em Trindade
Nós

O Brasil das Placas, mesmo na floresta

Flores, minhas preferidas
 



Mais grafite, lindo....

Paraty, Para mim...






Os inevitáveis reflexos

Essa é a praia do Cepilho


Chovia à cântaros









Gostei dessa luz...


O não tão famoso trabalhador da Flip

Candeeiro



As placas mais incríveis


Tão bonitos os reflexos...

Depois na Flip, outros encontros com:




Susana Salles, Lilian Schwarcz, Xico Sá, Ricardo Ramos, Stella Barbiere, Ninfa, Flávia (companheira do SESC RJ), a amiga Silvana, de tanto tempo, Marcelo (roteirista de O Palhaço), Alexandre Galo (ator do Filho Eterno), Daniela Seixas (artista plástica), Vagner (Prêmio SESC de Literatura), Ana (companheira do SESC), Marcelino Freire, Fernando Bonassi, Edgar Scandurra, Marco Aurélio o fotógrafo, Ricardo Napoleão e seus sapatos entre outros personagens bem significativos pra nós....
6 salsichões e  6 cervejas na barraca da Praça... Comidinha pra pobre é claro, mas estava ótimo, principalmente considerando que não tínhamos almoçado...

2 espetos de frango, bem macios e temperadinhos...Uau!
 
3 dias ensolarados e azuis

2 peças de teatro: Vivo demais para ser feliz impunemente e Graça, Graciliano

1 palestra de Milton Hatoum, magnífica!

1 encontro com Ruy Castro, um horror... uma pena

1 encontro com Barcinski e Xico Sá – esplêndidos como sempre...

2 encontros com Ricardo Ramos, uma delícia...literatura para crianças e jovens.

1 palestra do nosso mais recente, doce e velho ditador Eduardo Coutinho – Imperdível, uma grandeza de alma....

1 Encontro com Bonassi e Scandurra... Show de bola.... ou melhor, de ideias...

1 Encontro com Stella Barbiere, doçura...

1 encontro com Ninfa...do Movimento por um Brasil Literário, ótimo conhecê-la...

1 encontro rápido com Adriana Calcanhoto na Flipinha, que adoramos...

1 jantar Peixe com Banana no Restaurante Santa Rita, onde fomos atendidos pelo querido Kleber, menino bonito.... sedutor, nos deu uma dose da Gabriela, cachaça local, docinha.... e uma caipirinha de abacaxi com cachaça Corisco, também local...

O Ricardo um carioca mais velho, está há 10 anos em Paraty, mas não se acostuma com o jeito do pessoal....

Antes de ir embora, mais um encontro inusitado, na rodoviária, Ana Júlia e Jurema, pode???

Tivemos também, aquilo que chamamos de “A FLIP QUE NINGUÉM VÊ” – Muitos trabalhadores pendurados em andaimes, em meio às ferragens, tapetes enrolados, lonas sem fim, móveis e tudo o mais que fez a festa literária acontecer... É, realmente a gente não sabe de nada....

Viva os inúmeros trabalhadores braçais da Flip.... sem eles nada seria possível...

No mais, muitos dias chuvosos, enfim... que fazer....

Valeu!!!

 


 






 

 

 
 

Trindade em Números


A começar pela decisão de ir à Paraty, os números espantosos que seguem aqui, vejam só:

02 trajetos SP-RJ-SP

8 dias na Pousada Praia, Mar e Sol, recepcionados pela simpática e tatuada Viviane.

1 lençol que não cabia na cama e que me deixou louquinha!!!!

2 trilhas – Cachadaço e Brava.

4 praias – Meio, Cachadaço, Cepilho e Brava.

1 lagoa – Linda, translúcida, Cachadaço.

7 cafés da manhã com queijo quente e pingado, mais pão de queijo e broa de milho na padaria do Cheirinho – apelido dado pela sua mãe...

2 baldes de cerveja no Bar do Cepilho, servidos pela Priscila, uma atleta que subia e descia uma escadaria de mais ou menos 25 degraus para atender os desocupados na areia...que aliás parece ter lhe rendido belas pernas.

4 ou 5 cervejas na Praia do Meio e bate papo com André, lindo, com filhos de 12 e 18 anos, inacreditável!

Mais 4 ou 5 cervejas no Bar do Odair e do Brodovski.

1 porção de filé de peixe sororoca – MARAVILHOSOOOOOO...

3 doses da branquinha Coqueiro, original da cidade... delícia!

1 artesanato especial para Paulo Rafael, do nosso amigo hippie argentino – Guilherme e de brinde uma florzinha feita de arame na hora!

3 sopas bem quentinhas no Bar da mulher do Muvuca.

1 cocada de doce de leite na Doceria da Baiana.

Pelo menos 3 sorvetes da sorveteria Pistache, com chuva, frio e tudo...

2 cafés expressos (acredite se quiser) na creperia... sim...

1 Prato feito no Loucos e Malucos

2 Pratos feitos no Amendoeiras, muito bom....

1 estupendo suco de abacaxi com hortelã, depois de tanta cerveja, isso era o melhor.....

8 garrafas d’água pra dar conta da bebedeira.

1 incêndio na pousada da Vivi, mas que foi contornado... Ufa!

Pelo menos 4 cachorros e 2 gatos nos acompanhando durante a estadia

Vários grafites espalhados pela vila, mas todos de apenas 1 grafiteiro... com certeza.

11 trajetos de Busão pela montanha espiralada....conhecida também como ‘Deus me livre’!

01 noite baladeira no ‘Baixo Trindade’ – Fazendo referência ao Baixo Móoca ou Baixo Augusta, com dançarina, número circense da Verinha, música de boa qualidade e o Betão, bêbado que só ele, mas que era abraçado vez ou outra pela dançarina, o que fez seu ibope subir... Tudo isso no meio da rua, onde as pessoas podiam dançar, fumar, beber, as crianças podiam brincar, correr, os cachorros tomavam conta, os hippies se revezavam e baderna nenhuma...

Fiquei pensando... querida Trindade, o lugar onde nasci... se não nessa vida , em alguma outra.... quem sabe... com certeza... só pode ser...


Santíssima Trindade




A ideia de ir para a Flip em Paraty e ficar hospedado em Trindade exige coragem. Basicamente por dois motivos, o primeiro é que ao acordar em Trindade, num dia ensolarado, frente a um mar azul, pedras imponentes e montanhas da Serra da Bocaina, muito verdes e esplendorosas ao redor, a dúvida é cruel...ou seja, festa literária, coisa nenhuma!

Mas, considerando a coragem acima mencionada, supondo que o sujeito decida mesmo se manter firme no seu propósito de ir à Flip, isso significa pegar um ônibus de linha que levará 40 minutos para chegar até Paraty.

Mas isso não é nada, afinal, todo paulistano está super acostumado a enfrentar muito mais que 40 minutos nos transportes coletivos, então, estando em férias, isso pode ser completamente tranquilo, afinal, a paisagem de Trindade em nada se compara ao que vemos por aqui, da janela do busão.

Meus amigos, deixemos de enrolação, o que pega mesmo é a estrada, estreitíssima, sinuosa ao extremo, quase como uma montanha russa (guardando as devidas proporções). Eu que não dirijo, reparei que o motorista andou uns 20 minutos com o pé no freio, pois a impressão é que se não fosse assim, o veículo despencaria barranco abaixo.

E tem mais, na ida, o sol continuava radiante, iluminando as lindas montanhas e íamos apreensivos, mas felizes, já não se pode dizer o mesmo da volta, que era sempre por volta das 23h (horário do último ônibus), ou seja, puro breu, breu total... Não era possível enxergar nada, nem um palmo à frente do nariz, então apenas sentíamos na boca do estômago cada curva sinuosa e o constante barulho do freio.

Ah! não acabou, pois o mais interessante é que assim que o último ônibus saía da rodoviária, as luzes de dentro do ônibus se apagavam... Uma loucura, não conseguimos entender... Nesse momento não víamos realmente mais nada, nem quem estava do nosso lado...

Íamos praticamente sós, com nossos pensamentos e porquê não dizer, nossa fé, de que íamos chegar inteiros ao lindo destino, da adorável e santíssima Trindade nossa de cada dia!!!

 

domingo, 30 de junho de 2013

HiperReal


 
Há um ano e sete meses ando às voltas com a série HiperReal composta por 52 episódios sobre culturas juvenis, um tema que me é bastante caro. Primeiro, a tarefa de assistir

os 52 programas, depois escrever sinopses e mais ‘mil’ resumos estendidos de cada filme, para deixá-los bem vivos na memória e principalmente para compartilhar com aqueles que ainda não assistiram. Depois disso, repetidas leituras de textos que ajudem a articular todo esse extenso e tão denso conteúdo.

Alguém já disse,  que a gente se apaixona pelo objeto de estudo, acredito que não daria pra ser de outra forma, claro! Não foi diferente comigo, ainda bem....

Paixão sim, mas uma paixão completamente inquieta, cheia de dúvidas, incompreensões e alguns insights aqui e acolá... Fiquei pensando nesses processos de aproximação e distanciamentos que vivemos em relação a esses objetos de amor que tomamos nas mãos.

A obra de Kiko Goifman me acompanha há algum tempo, ou melhor dizendo, eu escolhi acompanhar sua obra  mais de perto...e vivem povoando meus pensamentos, minhas conversas e atualmente minhas percepções sobre juventudes.

A série me ajudou a compreender de outra forma o conceito de juventude e corroborou outras tantas impressões que eu já tinha...

Antes do HiperReal, mergulhei no 33 e em Filmefobia. O primeiro um belo filme de busca, estilo noir cheio de suspense e ironia. E assim, tudo misturado e híbrido, uma marca na cinematografia do diretor.

Só me resta agradecer por essas experiências reflexivas em torno do cinema, do documentário brasileiro e pela oportunidade que os filmes nos dão para refletir as coisas da vida também, e porque não?

Todas as vezes eu achei que não ia conseguir chegar ao término do processo, fiquei com medo e aquele friozinho na barriga, mas devo dizer que tudo deu certo, o aprendizado foi grande, acho que amadureci um pouco mais e hoje me sinto novamente assim, mas com uma única certeza, de que os produtos audiovisuais sempre me encantaram e sigo assim.

HiperReal impregnou minha vida, meu olhar, meus dias.

Tomara que eu consiga e saiba fazer o melhor com isso...

Kiko fez coisas imprescindíveis, recentemente como Olhe para mim de novo em parceria com  sua mulher Claudia Priscilla, fizeram também Vestido de Laerte, agora com uma pequena participação como ator...

Um pouco antes disso, algo bastante significativo ainda no campo da juventude foi o filme Fome de Viver para o SESC TV, em parceria com o SESC Ipiranga, com meninos que não podiam revelar sua identidade mostrando o rosto e para resolver esse impasse, Kiko sugeriu a construção de máscaras que serviram também para protegê-los.

Enfim, são mil coisas pululando por aí e gosto da ideia de me aproximar daquilo que não compreendo e que me intriga. Sei que termino por sair dessas histórias com  um pouco mais de clareza e a esperança de ter contribuído de algum  modo, para qualquer pensamento um pouco mais elaborado e diverso sobre juventudes, graças ao Kiko Goifman, cujo olhar sobre as culturas juvenis, melhorou o meu....

 

 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

SONHO DE CRIANÇA

 
 
 
Quem nunca sonhou com uma bicicleta? Que garota nunca sonhou em pintar as unhas, de preferência longas e vermelhas?, ou ainda cortar os cabelos de acordo com a moda vista através da janela chamada televisão, nos filmes , nas novelas, nas propagandas.
Wadja queria apenas uma bicicleta, porque queria competir numa corrida com seu melhor amigo.
 
Wadja é esperta, soube utilizar-se de muitos subterfúgios para alcançar seus objetivos, melhor dizendo, seu único e primordial objetivo te ter a bicicleta proibida.
Sim, proibida, para as meninas, como forma de impedir a perda acidental de sua virgindade.... Acredite se quiser!
Trata-se da cultura do diverso,  e nós por aqui com nossa 'mochilinha de porquês'.
 
Saí do cinema carregando uma dessas, só que bem grande...
O filme foi dirigido por uma mulher (Al Mansour), fato inédito na Arabia Saudita, quase impossível. Portanto, uma conquista em conteúdo e forma. Nos prestou enorme serviço ao compartilhar  um aspecto de uma realidade cultural tão complexa e adversa.
O filme é extremamente sensível, singelo, delicado e acertivo na abordagem.
A atriz mirim, é realmente magnífica e inesquecível.

ELENA


Eis um filme doloroso, profundo que dói fundo na alma...

Nem acho que o filme pretendesse ser isso, mas apenas é.. e foi assim que assisti estarrecida toda essa profusão de sentimentos transformados em imagens, contundentes, que de fato, falam mais do que qualquer palavra.

A questão da memória presente em cada pedacinho da história, um filme feito de fragmentos, registros e saudades.

Um filme para elaboras as perdas, as culpas e a incrível dor de ter perdido alguém tão especial.

Elena deve ter sido encantadora, ousada, atrevida, corajosa e extremamente sensível, por isso não aguentou.

No fundo, ela amava as coisas da vida. Por outro lado teve sua existência marcada por ter sido obrigada a uma infância  clandestina. O filme mostra o peso dessa repressão que vemos crescer no seu percurso.

Elena, constantemente inquieta, ansiosa, angustiada, mas forte até o fim!

Petra, a diretora,  também encanta pela delicadeza com que se expõe para contar essa história que também é sua...

Quanta doçura, quanto afeto, e a coragem de compartilhar a leitura de um caminho tão íntimo...

Petra é uma cineasta jovem que soube como ninguém transformar seu próprio sentimento e sua experiência afetiva  em imagens que comovem. O filme é isso, pura emoção, somos convidados a fruir as lindas imagens, ainda que nas profundezas de uma triste história!

 

O caminho se faz ao caminhar...


Agora não vou escrever sobre nenhum filme, vou falar sobre uma cena cotidiana que talvez resultasse num ótimo roteiro cinematográfico.
Já faz alguns dias que ao ir caminhar no Parque próximo de onde eu moro, encontro uma figura interessante, uma personagem mesmo...
Não sei quem ela é,  mas enquanto caminho, fico imaginando milhões de possibilidades para aquele ser inusitado...

Entro no parque por volta das 8h da manhã, ando alguns metros e derrepente sinto o perfume inconfundível.
Muito provavelmente, trata-se de um talco, daqueles que se vendia em caixinhas  mimosas, quadradas ou redondas, acompanhados de uma esponja peludinha e macia que servia para polvilhar aquele pó fininho sobre o corpo, depois do banho.

Engraçado isso, acho que essa reminiscência vem da minha infância, graças a uma tia querida, linda, que adorava se perfumar e se embelezar.
Ela tinha uma penteadeira encantadora para mim, repleta de lindos frascos de perfumes diversos, de todas as formas e cores.

Então, voltando ao parque, entro e sinto esse aroma inconfundível e vejo, logo adiante, uma senhora de mais ou menos 78 anos cabelos escuros, presos com uma fivela prateada, trajando calças compridas de tergal, uma camisa de seda florida e um coletinho por cima, calça sapatos de couro bem sem saltos.

Leva nas mãos uma sacolinha de papelão com qualquer coisa dentro, anda curvada mas disposta e percorre os 1500 metros da pista de cooper. Caminha bem lentamente, como se aquele caminho fosse leva-la  a algum lugar especial.

E lá vai ela, bem devagarinho  mas determinada, solitária mas aparentemente satisfeita.
Também sigo caminhando e sei que ela ainda está no parque pois continuo sentindo o aroma persistente do seu perfume.

Não sei porque, mas acho tudo muito nostálgico, ainda que  ao mesmo tempo singelo vê-la todos os dias a caminhar...
Estará em busca de que?  Pensa em que? Onde ela mora? Com quem?

Terá uma penteadeira cheia de frascos? Terá uma família?
Enfim, de pensar assim, olho no relógio e vejo que já caminhei quase uma hora e percebo que ela já se foi, com seu perfume....

 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Vestido de Laerte

Antes da exibição do filme Olhe para mim de novo de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, no CineSesc é possível assistir o curta Vestido de Laerte, também dirigido pela dupla.O curta é espetacular, discreto e fundamental. traz ótimas imagens da casa do cartunista num momento de intimidade enquanto se veste para sair.
O filme acompanha sua trajetória ´pela cidade de São paulo até um suposto órgão público competente que deverá autorizá-lo, depois de toda a burocracia, a utilizar o banheiro feminino. é profundamente irônico e engraçado mesmo!
Tudo isso somado às participações especiaçlíssimas de kiko goifman no personagem do funcionário público totalmente maluco e da Phedra, atriz cubana que é hilária no papel.
é isso, temas atuais que necessitam de muito debate, além disso,ambos os filmes,  fazem o exercício estético da representação de um tema difícil, fomenta o diálogo, a dúvida e a reflexão!!!

Olhe para mim de novo



É esse o recado... quando olhamos atentamente e de novo, podemos ver melhor, com mais clareza, mais generosidade, sem tantos atravessamentos, que aliás só servem para fortalecer os estereótipos que são tantos e tão mesquinhos. Olhar de novo para ver o outro, para encarar olho no olho a alteridade, aquele que é diferente de mim, mas cuja experiência é tão significativa quanto a de qualquer um de nós...
é fundamental ter um olhar despojado, para enchergar o diverso, na sua singularidade, sem julgamentos e à prioris.
 
O filme é lindo, um road movie, pé na estrada, com a cara e a coragem, nos desafiando a refletir nossos limites, nossos medos e inseguranças...
Lúcia nasceu menina, mas se construiu e se colocou no mundo ao lomngo da vida como homem. desenvolveu todas as características consideradas masculinas, com as quais se identificou desde sempre.
 
Tornou-se homem, apesar dos enfrentamentos, brigas, resistências e porque não dizer, inúmeras violências sofridas.
 
Enfim, tornou-se Sillvyo com orgulho. Casou-se, sonha ter um filho com sua mulher. Pensa na ideia de unir seu óvulo com o de sua esposa para que sejam fecundados e assim, seu filho reúna características do pai e da mãe...
Intrigante, um filme que faz pensar, que confunde e subverte os valores cristalizados nos quais  embasamos nossas vidas. Fomenta questionamentos e dúvidas.
 
Que bom! impossível deixar o cinema do mesmo modo como entramos.
eu me apaixonei pelo personagem, por sua clareza, sua coragem, sua vitalidade...
Valeu a pena olhar para esse tema de novo, agora de forma renovada e de novo, e sempre, com atenção, para ver denovo e cada vez melhor!

Olhe para mim de novo.
Direção: Claudia Priscilla e Kiko Goifman.
Bra. 2012

Somos tão jovens...



Nem tanto, mas a memória dos bons tempos permanece viva... sim, nostalgia...

Meus pais eram extremamente ecléticos no que ouviam. Talvez essa seja a maior vantagem de não conhecer tão bem as coisas, ou seja, ter a coragem de experimentar de tudo e descobrir o que as coisas significam por si mesmo....

Dentre tudo que ouvíamos, não posso esquecer, Roberto Carlos e toda a jovem guarda, é claro! As óperas e valsas de Strauss, Elis Regina, Bee Gees, Chico Buarque e a eterna Elza Soares ‘lata d’água na cabeça...’

Era uma miscelânea musical, mas eu adorava...sonhava com as canções.

Com 5 anos ganhei de um tio querido meu primeiro disco de vinil “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura” – objeto de desejo de 10 entre 10 garotinhas da minha idade – e claro provocou muita inveja nas minhas priminhas tão queridas!

Bom, deu pra perceber que sou de uma geração que acompanhou a trajetória  do toca discos,  e suas agulhas, depois o famoso 3X1 onde podíamos empilhar até 5 discos que tocavam consecutivamente até o Cd player com suas caixinhas de som minúsculas.

E assim fui crescendo e na adolescência, ninguém me aguentava com o insistente e permanente Peter Frampton que rodava sem cansar na ‘vitrola’. Além disso tinha o imbatível Elton John e os incríveis Dire Streets, Queen, Kiss, ABBA, Carpenters, Pink Floyd, Rolling Stones, Beatles, Bob Dylan, Bob Marley e por aí afora...

Toquinho, Vinicius, Caetano, Gil, Chico, Clube da Esquina tornaram-se paixão nos anos 80. Descobri que a música feita no brasil me encantava , eu me identificava demais, passei a prestar muita atenção nos músicos, nas melodias, nas letras das canções e era assim o tempo todo, muita música na cabeça, desde de manhã, bem cedinho... e sempre e mais!

Fui criando a trilha sonora da minha vida que sempre me ajudou e continua ajudando a dar outros sentidos pras coisas do dia a dia.

Nos anos 90, muita água já tinha rolado, muita história, alegria e tristezas sem fim. Então, aconteceu algo muito impactante, a presença contundente de Cazuza que sempre me emocionou com seus lindos álbuns que eu comprava com certa dificuldade, sua música sempre irreverente e tão sensível, pura poesia. Claro que junto com Cazuza havia o frescor e a força do rock de Brasília.

Maravilha, a juventude curtindo muito... Eu era mais tímida e introspectiva, gostava do legião Urbana, combinava comigo, com as coisas que eu pensava... Nessa época eu já não era tão jovem assim, tinha por volta de 25 anos, mas muitas das minhas histórias foram embaladas pela voz incrível de Renato Russo.

Tudo que o legião cantava era verdade pra mim, as letras das canções pareciam ter sido arrancadas dos corações e mentes jovens... eram extremamente tocantes e até hoje não consigo ficar imune a elas e é incrível perceber que as gerações posteriores à morte de Renato continuam cantando loucamente suas músicas... Emocionante mesmo.

Acho que a tristeza e a angústia crescentes de Renato me contagiaram incrivelmente para sempre e não vou conseguir esquecer aquela época, a perda de cazuza, Renato e bem depois o querido Tim Maia.

Pra mim, a música ficou um pouquinho menor...

Mas a vida continuou com Wisnick, Tati, Renatos, Mônica, Nego Dito, Nelson, Toninho, Teco, Guinga, Gudin, Josés, Chicos entre tantos outros...

O que importa é que a vida continua no embalo da melhor música do mundo, a brasileira... pelo menos pra mim!

Ao assistir o filme Somos Tão jovens,  outro filme passou na minha cabeça, meu filme, minha trilha sonora. Então pensei: ‘esses caras não sabem a importância de suas canções na vida das pessoas, eles não sabem que as canções tornam as pessoas e as nossas vidas muito melhores!’

 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Ontem é um lugar que não existe....

 
O filme Hoje de Tata Amaral traz a tona muitas questões fundamentais para a história do país, como as infinitas arbitrariedades da ditadura militar e suas torturas que mataram tantas pessoas e condenaram suas famílias ao sentimento eterno de dor, dúvida, culpa, abandono e esquecimento.
Mas fiquei pensando sobretudo, num aspecto muito elementar e talvez o mais importante de ser compreendido e incorporado por todos aqueles que vem acompanhando os trabalhos da comissão da verdade, com o intuito de esclarecer os acontecimentos e responsabilizar devidamente os assassinos e toturadores que agiram com o aval do governo.
Esse ponto é que ao falar da ditadura, não estamos falando de um passado, mas muito ao contrário, estamos completamente focados no presente, pois não é possível pensar nesse período histórico como apenas uma lembrança longinqua ou como fato esquecido. Nós continuamos impregnados dessa história triste, aqui e agora....
As feridas continuam abertas e sangrando... Apesar disso, a impunidade ainda prevalece.
A dor e a dúvida dos familiares continuam vivas.
O filme enfrenta o desafio de materializar aquilo que poderia ser representado como passado...
O personagem que participou da guerrilha retorna ao tempo presente... reencontra sua companheira de luta e de vida... Ele retornou mesmo? Como? Não morreu? Onde ele estava? Como sobreviveu?
Ou será que é um sonho? Uma alucinação da companheira que ainda sofre sua ausência??
Essa situação ambígua causa desconforto no espectador, confunde, porque quer confundir...
Ele voltou, não voltou, porque não havia ido embora nunca, pelo menos na memória de quem ficou, será?
Pra quem ficou, além da vida pra viver, resta a dpuvida, a culpa, a solidão que assombra todos os dias durante tantos anos...
A tristeza e a incerteza de não saber, de não compreender e a vontade de desisitir pra pode continuar vivendo...
De quaqluer modo é preciso elaborar a dor, olhar com certa distância para situações de extema opressão para só assim conseguir conviver com as feridas abertas no caminho da elucidação e da justiça que pretendemos alcançar no tempo presente. Hoje!